segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Oratória para agosto!

Oratório para Agosto
"Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver..."Para lembrar Dolores, cujo nome rima com flores, vou antecipar a primavera eflorir agosto, que muitos pensam ser de tragédias, de superstições, de desgosto.Vou florir passeios, pintar calçadas, clarear as fachadas, encantar o rosto de quem anda absorto, atolado em sofrimento, duelando com o vento.Vou trazer flores de maio, da canção bonita, margaridas e girassóis, abrigoe prosperidade.Vou plantar aquela planta, mas de tal forma planejada, que suas pétalas, ao serem desfolhadas naquela brincadeira tão infantil, outra terminação não tenha (e vale até uma trapaça), de qualquer modo que se faça, contra o mal que se fizer, seja sempre o Bem-me-quer.Burle Marx desvairado, vou florir desertos e transformar a areia, de estéril matéria fria, numa inesgotável fonte de energia, e espalhar oásis em terrasáridas, ressuscitar as fadas, vestir de branco as moças, e nos homens todos,prisioneiros da nostalgia, hei de plantar poesia, para que cantem com alegria, nas noites claras de luar, para a rosa mais linda que houver, paraa primeira estrela que brilhar.E tal como Pessoa, ao caminhar pelas estradas, hei de olhar para um lado e para o outro, para frente e para trás, e aquilo que verei será sempre aquilo que eu nunca tenha visto, e eu saberei, por isto, agradecer à natureza.Como Cecília, deixarei que meus dedos corram pelos versos, antes tristes,agora libertos e conectados à terra, de onde tudo vem e para onde tudo volta, e com tal certeza hei de colher encanto, para que a minha voz, antes agressiva, se revista (sem espanto) de um suave canto.E como se isso não bastasse, vou convocar todos os poetas e também alguns profetas, para que poetizem nas madrugadas, poemas de textura enluarada, e deles farei sementes, para semear os corações, pois se as árvores indefesas,os insensíveis arrancam do chão, um poema guardado no peito, ah!, isso eles não arrancam, não!Depois da missão cumprida, armaremos uma grande mesa, farta de pão, vinho e poesia, para nutrir os irmãos, da mais sagrada ceia, recompensa mais que justa, que o corpo tanto anseia.E para que a alma encontre amparo, contra a angústia, o medo, a solidão, heide clamar aos poetas um poema único, por todos escrito a uma só mão, para que, abençoado que será, se transforme numa única, uma única e universal oração!
Pedro Marzzagão

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